O primeiro debate transversal sobre transição energética, ocorrido no Brasil, escolheu Salvador como cidade-sede.

Por Carlos Corrêa


A vibrante e hospitaleira capital da Bahia, fundada em 1549, foi a primeira capital do Brasil, é uma das cidades mais antigas continuamente habitadas no continente americano e a primeira cidade planejada do país. Com forte influência africana, que torna Salvador o centro da cultura afro-brasileira, a cidade também é notável, nacional e internacionalmente, por sua gastronomia, música, arquitetura e literatura.

Além dessa forte história, Salvador mostra que também olha para o futuro ao promover e hospedar o primeiro evento do Brasil que debate, de forma transversal, a necessidade de uma transição energética que garanta um futuro sustentável para o planeta. O iBEM25 – International Brazil Energy Meeting 2025[1],realizado na cidade entre 25 e 27 de março, trouxe para Salvador mais de 6.000 representantes de mais de 30 países, com quase 300 palestrantes abordando temas que incluem diversas fontes de geração de energia.

O evento se iniciou com participantes de órgãos dos governos do município de Salvador e do estado da Bahia junto a representes de entidades nacionais e internacionais debatendo o tema e abordando questões ligadas aos benefícios econômicos, científicos e sociais que envolvem a transição energética. No iBEM25 se discutiu sobre formas e soluções de financiamento que facilitem e estimulem o desenvolvimento de novos projetos, se tratou de formas de recuperação e otimização energética, de reciclagem e descomissionamento de instalações existentes, da necessidade de melhorar a qualificação dos profissionais que deverão fazer parte desse processo e, por fim, trouxe perspectivas sobre as novas fronteiras da energia.

Os debates sobre as novas fronteiras da energia, deixaram clara a importância de todos os envolvidos na produção e consumo de energia: desde entidades e empresas totalmente dedicadas às novas fontes renováveis de geração de energia, (solar, eólica, geotérmica, energia das marés, hidroelétricas e biomassa), até entidades e empresas atualmente ligadas à fontes fósseis, como o petróleo e o carvão mineral. Empresas do setor de óleo & gás, por exemplo, têm de debruçado com muita dedicação à implantação de sistemas de redução das emissões de CO2 para atmosfera, além da otimização de seus processos de conversão, que também terão efeitos positivos nas emissões de gases do efeito estufa.

A última transição energética, que alçou o petróleo para a posição de principal fonte de geração de energia, se iniciou nos anos 1920 com o surgimento da indústria petroquímica e levou mais de 50 anos até que o óleo se consolidasse nessa posição. A transição energética atual, surgida a partir das mudanças climáticas que o planeta vem enfrentando, não deverá ser muito diferente. Não se pode, do dia para a noite, mudar toda a base de geração de energia que sustenta o atual modo de vida da maior parte sociedade que habita esse planeta. Mesmo que isso fosse o ideal, não temos disponibilidade de novas fontes e nem tecnologia para essa mudança mais brusca. E ainda se passarão algumas décadas até que isso possa se realizar. Mas é preciso começar já!!

O iBEM25 foi um movimento arrojado do estado da Bahia, do município de Salvador, dos organizadores (Austral, BrainMarket, Eolus) e de todos os participantes e palestrantes que dedicaram tempo e esforço para que o evento fosse o sucesso que foi. Mas ainda é pouco! É preciso que setores, até então, intensivos na emissão de CO2, como os setores de óleo & gás, mineração & siderurgia e química & petroquímica, tenham uma participação mais presente nesse tipo de iniciativa. Afinal eles têm trabalhado muito para que suas indústrias reduzam significativamente suas emissões de gases e podem trazer grandes contribuições para esse debate. Além disso, assim como aconteceu em processos de transformação anteriores, vislumbrar que podem (e, na minha modesta opinião, devem!) investir em novas fontes energéticas renováveis e integrá-las à suas operações, aumentando sua eficiência e, consequentemente, sua rentabilidade.

Dados de 2023 mostram que mais de 70% das emissões de CO2 para a atmosfera são oriundas de processos de geração de energia: seja para consumo em residências e instalações comerciais, para uso nas indústrias ou ainda para a produção de combustíveis de uso nos meios de transporte. O iBEM25 mostrou o desenvolvimento mais avançado de fontes que poderão compor um mix sustentável para geração da energia a ser consumida em prédios e indústrias, com destaque para fontes de energia solar e eólica, mas ainda pouco avanço no desenvolvimento de fontes renováveis para a produção de combustíveis a serem usados nos meios de transporte (terrestre, naval e aéreo). E, é justamente nesse ponto, que destaco um potencial gigantesco para que o Brasil, junto com as instituições e indústrias que atuam por aqui, possam protagonizar processos de transição energética.

O Brasil é o país com a maior biodiversidade do planeta e com uma disponibilidade potencial de biomassas[1] vegetais residuais que pode ser capaz de competir em pé de igualdade com as fontes fósseis para a produção de combustíveis. Notem que eu falei em biomassas residuais!! Apesar de insistências de outros países e órgãos internacionais, como a OCDE, em afirmar o contrário, temos capacidade de aumentar nossa produção de biocombustíveis, como o etanol por exemplo, sem afetar nossa produção de alimentos. Para ficar apenas no exemplo do etanol, temos a segunda produção global de etanol utilizando apenas o caldo da cana-de-açúcar cujo plantio ocupa apenas 1% de nosso território. Se utilizarmos também 50% da palha da cana, que fica no canavial depois da colheita, podemos dobrar a produção brasileira de etanol sem qualquer aumento da área utilizada para plantio, nos tornando no maior produtor de etanol do planeta. Se utilizarmos, além da palha da cana, a palha de outras culturas (soja e milho, p.ex.) e resíduos de outras culturas como a do café, do açaí, do guaraná, da palma, entre tantos outros, poderemos nos transformar em uma potência mundial na produção de combustíveis e bioquímicos, sem afetar, em nada, nossa produção de alimentos.

O Brasil é o país com a maior biodiversidade do planeta e com uma disponibilidade potencial de biomassas[2] vegetais residuais que pode ser capaz de competir em pé de igualdade com as fontes fósseis para a produção de combustíveis. Notem que eu falei em biomassas residuais!! Apesar de insistências de outros países e órgãos internacionais, como a OCDE, em afirmar o contrário, temos capacidade de aumentar nossa produção de biocombustíveis, como o etanol por exemplo, sem afetar nossa produção de alimentos.

Para ficar apenas no exemplo do etanol, temos a segunda produção global de etanol utilizando apenas o caldo da cana-de-açúcar cujo plantio ocupa apenas 1% de nosso território. Se utilizarmos também 50% da palha da cana, que fica no canavial depois da colheita, podemos dobrar a produção brasileira de etanol sem qualquer aumento da área utilizada para plantio, nos tornando no maior produtor de etanol do planeta. Se utilizarmos, além da palha da cana, a palha de outras culturas (soja e milho, p.ex.) e resíduos de outras culturas como a do café, do açaí, do guaraná, da palma, entre tantos outros, poderemos nos transformar em uma potência mundial na produção de combustíveis e bioquímicos, sem afetar, em nada, nossa produção de alimentos.

Por uma feliz coincidência de datas, o iBEM25 terminou na mesma semana do lançamento, pelo MDIC[3], da publicação “Elementos para uma Estratégia Nacional de Implementação de Biorrefinarias”[4] elaborado pelo GEBio – Grupo de Estudos em Bioeconomia da UFRJ, do qual tenho o orgulho de fazer parte. A publicação trata, em detalhes, do potencial do uso de biomassas residuais no país e fornece subsídios para o desenvolvimento da bioeconomia brasileira. Vale a pena conferir!

Por uma feliz coincidência de datas, o iBEM25 terminou na mesma semana do lançamento, pelo MDIC , da publicação “Elementos para uma Estratégia Nacional de Implementação de Biorrefinarias” elaborado pelo GEBio – Grupo de Estudos em Bioeconomia da UFRJ, do qual tenho o orgulho de fazer parte. A publicação trata, em detalhes, do potencial do uso de biomassas residuais no país e fornece subsídios para o desenvolvimento da bioeconomia brasileira. Vale a pena conferir!

Voltando ao convite ao setor de óleo & gás para investir mais em fontes renováveis, o uso de biomassa evita, por exemplo, perfurações em camadas profundas dos oceanos com um grande risco poluidor, evita a construção de plataformas e navios para produção offshore, transporte de profissionais para essas plataformas, evita gastos enormes em descomissionamento de instalações após o esgotamento dos poços e tantos outros gastos inerentes à extração do óleo bruto. Uma vez alcançado o desenvolvimento tecnológico necessário (que não irá demorar muito para acontecer), a produção de combustíveis a partir de biomassa, trará custos de produção muito abaixo dos atuais, aumentando a rentabilidade de empresas e investidores que tenham tido essa visão.

A janela de oportunidade, para investir no desenvolvimento tecnológico e no uso de biomassas residuais em grande escala, está escancarada e significa transformar resíduos em produtos de alto valor agregado e, “de quebra”, reduzir drasticamente a emissão de gases do efeito estufa, já que a produção de combustíveis a partir da biomassa, é neutra na emissão de carbono, consumindo todo o CO2 gerado. Um efeito colateral não menos importante será a inclusão regional na cadeia de produção, de populações próximas às fontes de geração de biomassa, aumentando o perímetro de desenvolvimento social do país.

Já ouvi alguém dizer que, se um sapo for colocado em uma panela, que, em seguida, é cheia com água fria, e depois se começa a aquecer a panela, o sapo não percebe as pequenas variações de temperatura da água e vai se adaptando. Até que chega ao ponto de fervura e o sapo não consegue mais reagir, e morre…

Quem sabe, podemos reagir diferente do sapo e tomar ações concretas de combate ao aumento médio de temperatura de nossa panela global, enquanto ainda não se alcançou uma temperatura que seja alta demais para a frágil espécie humana, que tolera variações externas de temperatura ainda menores que os anfíbios.

Parabéns aos promotores e organizadores do iBEM25. Quem venham outros!

[1] Acesso em: https://ibemenergy.com/pt/home-2025-pt/

[2] Biomassa pode ser definida como toda matéria orgânica de origem animal (dejetos, carcaças e resíduos da produção de alimentos de origem animal etc.) ou vegetal(plantas, árvores, frutos, palha, galhos e folhas etc.) usada com a finalidade de gerar bioenergia (na forma de calor, eletricidade ou biocombustíveis) e bioprodutos, como químicos, biofertilizantes, biopolímeros e rações.

[3] Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços – Governo Federal – Brasil

[4] Acesso em: https://www.gov.br/mdic/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/biorrefinarias

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